DESDOMESTICAR PARA EVOLUIR

por Ricardo Guimarães
Domesticamos o mundo para sobreviver.
Agora precisamos sobreviver à nossa domesticação.
O processo civilizacional domesticou o ser humano — um processo necessário, que trouxe estabilidade, escala e previsibilidade. Mas, ao longo do tempo, também suprimiu competências essenciais para a saúde, a sobrevivência e a evolução.
Herdeiros de uma sociedade hierárquica, patriarcal e conservadora, fomos educados a ver o conflito como algo ruim, a ser evitado e reprimido para não perturbar a ordem. (ordem e progresso!)
Obedientes, ao negar os conflitos, deixamos de aprender a nos proteger deles — e, principalmente, a usufruir deles como motores de transformação.
Domesticados, deixamos de desenvolver competências neurológicas e culturais fundamentais para viver numa sociedade em rede, que, ao contrário da sociedade industrial, não reprime — mas expõe e amplifica conflitos de todo tipo.
“Conforme nossas diferenças vêm à tona, a união pode produzir mais calor do que luz, mais conflito do que compreensão.” W.Ury. in “Sim, É Possível- sobreviver e prosperar numa era de conflitos.”
Essas competências não desapareceram. Estão atrofiadas por falta de uso.
Uma delas é a negociação — que, antes de ser uma competência acadêmica, é condição básica para a sobrevivência e evolução de qualquer sistema vivo: de samambaias a seres humanos.
O resultado é um descompasso: uma humanidade formada para evitar conflito, vivendo num mundo que exige competência para lidar com ele.
Os sintomas estão por toda parte: sofrimento psíquico, polarização, colapso ambiental, desorganização social.
Não porque a civilização falhou — mas porque as soluções que nos trouxeram até aqui podem estar nos impedindo de continuar evoluindo.
“Desdomesticar para evoluir” não é voltar ao estado selvagem. É recuperar — e desenvolver — competências que foram reduzidas pelo excesso de controle, conformidade e conformismo.
É recontratar crenças, hábitos e modelos mentais que fizeram sentido no passado, mas que hoje podem limitar nossa capacidade de viver, negociar e evoluir em um mundo cada vez mais complexo, inovador, interdependente e imprevisível.
Está na hora de falar de desdomesticação e seu impacto na transição da sociedade industrial para a sociedade em rede. Vamos?



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